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Que diabos tu tem dentro da cabeça?

text posted 1 year ago with
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     Fazia uma manhã ensolarada nesse triste dia de maio. Sabe, essa é a verdadeira poesia do outono: seus dias são sempre tristes. Mesmo aqueles que, como esse, abrigam o Astro Rei exibindo-se perante a ausência de nuvens no céu. Até mesmo esses são tristes.

     E isso nada tem a ver com o fato de eu estar enterrando a mulher que eu amo hoje.

     Porém, lá estava eu enterrando minha esposa e, se isso fosse um discurso que eu estivesse lendo em voz alta, nenhum dos aqui presentes entenderia a ironia dessa ocasião.

     De todas as coisas que eu amava na minha menina, a que eu de longe mais adorei e venerei e me gabei por ter achado alguém com essa característica, foi o seu jeito divertido e brincalhão de viver a vida.

     Aquele seu jeito animado de chegar em casa em uma quinta à noite gritando “Amor, manda seu “terno fúnebre” para a lavanderia. Uma tia da mamãe morreu e nós teremos que ir tomar uns drinks e debochar do discurso do padre amanhã à noite”.

     E era o que fazíamos. Comparecíamos a todo e qualquer velório ao qual éramos convidados – algumas vezes até invadíamos alguns -, embebedávamo-nos e chorávamos junto ao grupo mais ridiculamente comovido da ocasião.

     Ao término, íamos para casa com olhos e rostos vermelhos e bebíamos cerveja até a noite acabar, gargalhando sobre a vestimenta e a maquiagem borrada dos presentes no velório.

     Ela sempre achou essas cerimônias absolutamente cômicas, bobas e sem o menor significado. E hoje quem está aqui sou eu – somos nós dois – no meu “terno fúnebre”, o qual eu nunca pensei que usaria sem ela ao meu lado usando o seu “vestido de luto”. E dói, mas é um dor que faz cócegas no estômago, saber que ela riria de qualquer coisa que eu fale quando a hora do meu discurso chegar.

     E essa é a ironia dessa cerimônia. Nós dois que sempre ríamos da morte, demos de cara com ela na forma de um caminhão fora de controle. Caminhão (morte) esse que tirou de mim a mulher que eu amo.

     E o pior de tudo nessa imensa ironia, é pensar que eu não vou ter a Júlia… A minha esposa comprimindo os lábios para não rir, enquanto comenta sobre ela no meu ouvido. Nem vou tê-la mandando-me à merda enquanto eu a encho de beijos às oito da manhã antes de sair para o trabalho. Nem ao menos vou tê-la as sextas a noite pendurada ao meu pescoço me forçando a pedir penico. E o que mais dói é isso. As brincadeiras que eu nunca mais terei.

Jéssica Munhoz